A gente fala e ouve o tempo todo: as crianças, logo-logo, vão nascer com um computador ou um celular na mão, digitando e enviando mensagens; as crianças e jovens são cada vez mais precoces, pois se desenvolvem cada vez mais rápido. E é fato. Eu não deixo de me surpreender com primos e filhos de amigos que, ainda muito pequenos, fazem coisas que eu e os colegas da minha geração, levamos algum tempo para alcançar. A gente se espanta, mas acha bonito, sente orgulho. Será?
Porque, ao mesmo tempo, a gente se cansa e reclama da pressa em que vive. E, nessa onda de se desenvolver rápido, eu fico observando os anúncios de vagas para estágio: buscamos estagiário com experiência, fluência em tais e quais idiomas, capacidades das mais variadas… É estágio isso mesmo? Estágio não servia exatamente para dar oportunidade de experiência, de desenvolvimento de habilidades, etc.? Não era esse o momento de experimentar, de errar e aprender com o erro, de perguntar aos colegas para entender melhor os processos?
Tenho a impressão que as estruturas do capitalismo venceram de forma irrevogável, porque a gente aceita isso tudo e entra na neura, achando estranho estagiário que “não tem autonomia para tomar decisões sozinho” e incentivando filhos, sobrinhos, amigos a agir, aos 16, 18 anos, com a mesma responsabilidade e competência que são exigidas de profissionais mais maduros.
Tô vendo a hora em que, na sala de parto, haverá o obstetra, o pediatra e um profissional de Recursos Humanos que, logo ao nascer, já vai identificar os skills e oportunidades de desenvolvimento dos bebês. No berçário, haverá workshops e seleção de potenciais talentos. Ao sair do hospital, coaching.
Será que dá tempo de criar algum movimento anti-precocidade?
Publicado em agosto 31, 2011
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